“Se és contra, não faças um. Não impunhas a tua moral aos outros.”
Isso resolveria a conversa se só estivesse em causa uma pessoa. Toda a discussão é sobre se há ali uma segunda.
Este princípio é bom e usamo-lo todos os dias: em coisas que só afectam quem as faz, cada um decide. Ninguém quer o Estado a escolher o que comes ou em que acreditas.
Só que não o aplicamos quando há outra pessoa envolvida. Ninguém diria “se és contra a violência doméstica, não batas na tua mulher”, porque percebemos logo que ali há alguém a ser afectado.
O que isto revela é útil: quem usa esta frase já respondeu à pergunta de fundo, sem a discutir. Se no útero não houver ninguém, a frase faz todo o sentido. Se houver, não faz nenhum. Por isso a melhor coisa que podes devolver não é um contra-argumento, é a pergunta: então o que é que está lá?
Outras objecções sobre o início da vida
- “O corpo é dela. Ninguém tem nada a ver com isso.”Concordamos que o corpo dela é dela. A questão é que numa gravidez há um segundo corpo, com ADN próprio e metade das vezes com sexo diferente.
- “É um ser humano, mas ainda não é uma pessoa.”Faz sentido perguntar isso. Só que quando se procura o que muda entre um feto e nós, aparecem apenas quatro coisas, e nenhuma delas funciona como critério.
- “Ninguém sabe quando é que a vida começa. É uma questão de opinião.”Quando começa a vida biológica não é opinião, está nos manuais de embriologia. O que é discutível é outra coisa: a partir de quando é que essa vida conta.
