“Ninguém sabe quando é que a vida começa. É uma questão de opinião.”
Quando começa a vida biológica não é opinião, está nos manuais de embriologia. O que é discutível é outra coisa: a partir de quando é que essa vida conta.
Convém separar duas perguntas que costumam andar juntas. A primeira é quando começa a existir um organismo humano vivo, e essa tem resposta: à fecundação. Não é uma posição religiosa nem uma leitura militante, é o que dizem os manuais de embriologia usados nas faculdades de medicina.
A segunda pergunta é filosófica e essa sim é discutível: a partir de que momento é que aquela vida merece protecção. É aí que há desacordo honesto, e é aí que vale a pena discutir.
Mas há uma consequência prática de admitir que não sabemos. Quando não temos a certeza se há alguém à nossa frente, agimos com cuidado. Um caçador que não sabe se aquilo que se move no mato é um animal ou uma pessoa não dispara. A dúvida, por si só, já é uma razão para parar.
Outras objecções sobre o início da vida
- “O corpo é dela. Ninguém tem nada a ver com isso.”Concordamos que o corpo dela é dela. A questão é que numa gravidez há um segundo corpo, com ADN próprio e metade das vezes com sexo diferente.
- “É um ser humano, mas ainda não é uma pessoa.”Faz sentido perguntar isso. Só que quando se procura o que muda entre um feto e nós, aparecem apenas quatro coisas, e nenhuma delas funciona como critério.
- “Nas primeiras semanas não sente nada. Nem tem cérebro formado.”É verdade que muito cedo não há sistema nervoso capaz de sentir. Mas a questão é outra: se sentir dor fosse o critério, matar alguém anestesiado deixava de ser grave.
