“É um ser humano, mas ainda não é uma pessoa.”
Faz sentido perguntar isso. Só que quando se procura o que muda entre um feto e nós, aparecem apenas quatro coisas, e nenhuma delas funciona como critério.
Muita gente aceita a biologia e trava aqui, e é uma posição defensável: parece haver uma diferença entre estar vivo e contar como alguém. Vale a pena tentar dizer qual é essa diferença, porque só há quatro candidatas.
O tamanho. Há adultos de metro e meio e adultos de dois metros, e ninguém acha que uns valham mais.
O desenvolvimento. Um recém-nascido não raciocina, não se governa e não se lembra de nada. Se é isso que faz uma pessoa, ele também não passa.
O sítio onde está. Dez centímetros de canal de parto. Mudar de sítio nunca fez nem desfez ninguém.
A dependência. Quem está numa cama ligado a uma máquina depende inteiramente de outros, e não deixou de contar por isso.
Agora experimenta transformar cada uma delas num critério para ter direito a viver, e vê onde é que isso te deixa. Nenhuma das quatro conclusões é aceitável para nenhum de nós, o que sugere que estávamos à procura no sítio errado. Uma pessoa vale pelo que é, não pelo que já consegue fazer.
Outras objecções sobre o início da vida
- “O corpo é dela. Ninguém tem nada a ver com isso.”Concordamos que o corpo dela é dela. A questão é que numa gravidez há um segundo corpo, com ADN próprio e metade das vezes com sexo diferente.
- “Ninguém sabe quando é que a vida começa. É uma questão de opinião.”Quando começa a vida biológica não é opinião, está nos manuais de embriologia. O que é discutível é outra coisa: a partir de quando é que essa vida conta.
- “Nas primeiras semanas não sente nada. Nem tem cérebro formado.”É verdade que muito cedo não há sistema nervoso capaz de sentir. Mas a questão é outra: se sentir dor fosse o critério, matar alguém anestesiado deixava de ser grave.
