“Nas primeiras semanas não sente nada. Nem tem cérebro formado.”
É verdade que muito cedo não há sistema nervoso capaz de sentir. Mas a questão é outra: se sentir dor fosse o critério, matar alguém anestesiado deixava de ser grave.
A intuição por trás disto é boa: sofrimento importa, e importa muito. Vale a pena testá-la num caso onde já sabemos a resposta.
Uma pessoa sob anestesia geral não sente absolutamente nada. Não temos dúvidas de que matá- la seria tão grave como matar qualquer outra pessoa, talvez mais, precisamente por estar indefesa. Ou seja: a capacidade de sentir dor não é o que faz o mal de matar alguém.
O que a ausência de dor muda é a crueldade do acto, não a sua natureza. É uma distinção real e não a queremos apagar. Mas ela responde à pergunta “de que maneira” e não à pergunta “a quem”.
Cuidado: Não construas a tua posição sobre a dor fetal. Se a dor fosse o problema central, bastaria tornar o aborto indolor para o resolver.
Outras objecções sobre o início da vida
- “O corpo é dela. Ninguém tem nada a ver com isso.”Concordamos que o corpo dela é dela. A questão é que numa gravidez há um segundo corpo, com ADN próprio e metade das vezes com sexo diferente.
- “É um ser humano, mas ainda não é uma pessoa.”Faz sentido perguntar isso. Só que quando se procura o que muda entre um feto e nós, aparecem apenas quatro coisas, e nenhuma delas funciona como critério.
- “Ninguém sabe quando é que a vida começa. É uma questão de opinião.”Quando começa a vida biológica não é opinião, está nos manuais de embriologia. O que é discutível é outra coisa: a partir de quando é que essa vida conta.
