“E as crianças indesejadas? O sistema de acolhimento já está cheio.”
É um problema real e devia envergonhar-nos. Só que ele não diz nada sobre o que está no útero: não matamos um órfão de cinco anos por ninguém o querer adoptar.
O estado do acolhimento em Portugal merece campanha própria e quem levanta isto tem razão em levantá-lo.
Como argumento, porém, ele não decide a questão. Ninguém defende que uma criança já nascida possa ser morta por não ser desejada, e é exactamente isso que teria de ser verdade para este argumento funcionar.
O que ele mostra bem é outra coisa, e essa é justa: quem defende a vida tem de aparecer depois do nascimento. Apoio a mães, famílias de acolhimento, adopção menos burocrática. Se não aparecermos aí, o argumento passa a ter razão sobre nós, ainda que não tenha razão sobre o aborto.
Cuidado: Não uses “e a adopção?” como resposta fechada. Não responde à pergunta de fundo, e quem está à tua frente percebe isso.
Outras objecções sobre o início da vida
- “O corpo é dela. Ninguém tem nada a ver com isso.”Concordamos que o corpo dela é dela. A questão é que numa gravidez há um segundo corpo, com ADN próprio e metade das vezes com sexo diferente.
- “É um ser humano, mas ainda não é uma pessoa.”Faz sentido perguntar isso. Só que quando se procura o que muda entre um feto e nós, aparecem apenas quatro coisas, e nenhuma delas funciona como critério.
- “Ninguém sabe quando é que a vida começa. É uma questão de opinião.”Quando começa a vida biológica não é opinião, está nos manuais de embriologia. O que é discutível é outra coisa: a partir de quando é que essa vida conta.
