“É compaixão. Não podes obrigar alguém a sofrer.”
Compaixão quer dizer sofrer com alguém. Aqui a proposta é fazer desaparecer quem sofre, e isso não é o mesmo — nem se torna certo quando o sofrimento é real.
Quem diz isto está a olhar para uma pessoa concreta a sofrer, e isso merece respeito. A intenção é boa. O problema está no que a solução faz.
O sofrimento não é eliminado quando se elimina quem o sente. É contornado. E se aceitarmos que a resposta ao sofrimento pode ser acabar com a pessoa, deixámos de conseguir explicar porque é que essa resposta não serve para os outros sofrimentos: o luto, a depressão, a solidão, a deficiência grave.
Ninguém aqui defende obrigar alguém a sofrer. Recusar tratamentos inúteis é legítimo, tratar a dor até adormecer alguém é boa medicina, e deixar morrer em paz não é matar. A linha que não atravessamos é outra: não se mata doentes.
E porque não os matamos, ficamos a dever-lhes tudo o resto. Cuidados paliativos a sério não são a razão pela qual somos contra a eutanásia — são a obrigação que nos fica depois de dizermos que aquela vida continua a valer.
Outras objecções sobre eutanásia e suicídio assistido
- “É a minha vida. Tenho o direito de decidir quando acaba.”Quando uma pessoa saudável nos diz isso, tentamos ajudá-la a mudar de ideias e chamamos-lhe cuidar. Quando é uma pessoa doente, chamamos-lhe autonomia.
- “Ele vai morrer de qualquer maneira. Só se está a antecipar o inevitável.”Todos vamos morrer de qualquer maneira. Se isso justificasse antecipar, justificava em qualquer idade, e ninguém aceita isso.
- “Recusar tratamento já é permitido. Isto é a mesma coisa.”Não é. Numa, a doença mata a pessoa e nós deixamos de a impedir. Na outra, a causa da morte passamos a ser nós.
